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Coruche: Comemorações de Abril unem memória, cultura e comunidade

Assinalando os 52 anos da Revolução dos Cravos e os 50 anos do Poder Local, o Município de Coruche convoca a memória não como mero exercício comemorativo, mas como matéria viva e ativa, lugar de consciência e construção. O programa, que cruza testemunho, criação artística e participação cívica, atravessa gerações e linguagens para interrogar o presente à luz das conquistas de 1974. Das imagens que guardam o instante da rutura às vozes que continuam a interpelar o presente, as comemorações desenham um percurso exigente e plural em que Abril é menos evocação e mais prática viva, inscrita no território, nas pessoas e no futuro que continua por cumprir em Liberdade.

O programa teve início a 11 de abril, pelas 17 horas, no Pavilhão Multiusos, com o concerto comemorativo do 130.o aniversário da Sociedade Instrução Coruchense, momento que assinalou o papel histórico do movimento associativo na vida cultural e cívica do Concelho. A memória abre-se como matéria inquieta a 17 de abril, com a inauguração da exposição “O Legado de um Cravo”, na Galeria de Exposições do Mercado Municipal — um percurso que atravessa a longa noite do Estado Novo, a violência da repressão, a condição silenciada das mulheres e a guerra colonial, para desembocar no gesto irreversível de Abril e nas interrogações que dele ainda irradiam. A mostra não trata de fixar o passado, mas de o expor à luz, tornando-o legível, discutível, vivo.

Na mesma noite, o cinema prolonga o movimento reflexivo com “Portugueses” (2022), de Vicente Alves do Ó, um filme feito de fragmentos, rostos e histórias que se entrelaçam ao ritmo de 13 canções da nossa memória coletiva, compondo o retrato coral sensível de um país em trânsito, suspenso entre o que foi e o que ainda procura ser. Documental e emotivo, o primeiro eixo das comemorações lavra Abril em território aberto — não como herança pacificada, mas enquanto lugar de tensão, consciência e exigência futura.

A palavra surge também como espaço de intervenção e futuro com o VOZ – O Poder da Palavra, concurso nacional de escrita, eloquência e oratória, que traz a Coruche uma das suas etapas regionais nos dias 18 e 19 de abril. Dirigido a jovens dos 15 aos 25 anos, o VOZ transforma a linguagem em prática cívica, desafiando novas gerações a pensar e a dizer o mundo através de textos originais que atravessam temas como a democracia, a inclusão, a saúde mental ou os limites da inteligência artificial. Do discurso à poesia dita, de spoken word a rap ou slam, a palavra deixa de ser apenas forma de expressão para se tornar lugar de pensamento, confronto e Liberdade no espaço público.

Ainda no dia 18 de abril, pelas 15h00, realiza-se a sessão de poesia “Só a poesia liberta!”, na Galeria do Mercado Municipal de Coruche, numa iniciativa organizada por Um Poema na Vila, reforçando o papel da palavra como expressão de liberdade.

A criação artística é um dos eixos centrais da programação de Abril, convocando a música e a cena como formas de revisitar e fazer Abril no presente. A 19 de abril, às 16 horas, no Pavilhão Multiusos, o espetáculo “Maia, o Musical”, da companhia Artes & Cenas – Criação e Produção Cultural, leva a palco a figura de Fernando Salgueiro Maia, cruzando teatro, movimento e música numa abordagem sensível e contemporânea que procura revelar o homem por detrás do símbolo e aproximar a Revolução das novas gerações.

Já na noite de 24 de abril, às 22 horas, no Pátio do Museu Municipal, o espetáculo “Abril Será Sempre Amanhã” reúne Carlos Alberto Moniz, Lúcia Moniz e Manuel Freire num concerto de forte densidade simbólica. Protagonista da música portuguesa ligada à canção de intervenção, Carlos Alberto Moniz traz um percurso marcado pela vivência direta de Abril e pela proximidade ao universo de José Afonso, com quem partilhou palco e o compromisso com a Liberdade, a cultura popular e a identidade coletiva, integrando numa linhagem em que a palavra cantada é memória e ato de libertação. Ao seu lado, Manuel Freire — voz incontornável de “Pedra Filosofal” — e a filha Lúcia Moniz, intérprete relevante de presença contemporânea, compõem um encontro de gerações que faz da música ponto de amplificação da consciência, mas também de evocação e permanência. À meia-noite, a celebração prolonga-se com o tradicional fogo de artifício na frente ribeirinha, assinalando a passagem para o dia claro da Liberdade.

A dimensão cívica e comunitária das comemorações afirma-se de forma particularmente expressiva no dia 25 de abril, com um programa que convoca o território e a população para a vivência partilhada da data fundadora da democracia. A manhã inicia-se com a cerimónia de hastear da bandeira, seguida da sessão solene nos Paços do Concelho e da apresentação de cumprimentos à mostra associativa, num reconhecimento do papel das coletividades na construção quotidiana da cidadania. Ao longo do dia, a Escola-Museu Salgueiro Maia, em São Torcato, abre-se à comunidade com visitas guiadas e jogos tradicionais, cruzando memória histórica e práticas populares. A Biblioteca Municipal acolhe a “Hora do Conto: Contos da Liberdade”, por Carlos Alberto Silva, exímio contador e cantador de histórias, trazendo aos mais novos os valores de Abril através da palavra e da imaginação.

No dia 26 de abril, o desporto e a dimensão internacional cruzam-se numa jornada que vai das Piscinas Municipais, com o XVII Torneio de Natação do Sorraia — eliminatórias de manhã e finais à tarde — ao Pavilhão Multiusos, que recebe, pelas 16 horas, a Gala das Nações do Festival Internacional de Folclore, Cultura e Artes (FIFCA). Num mesmo palco, gentes, cantares, danças e tradições de diferentes geografias encontram-se e reconhecem-se, compondo um mapa vivo onde a diversidade não se exibe: partilha-se. O festival prolonga-se no território através de ações de proximidade, nomeadamente junto da comunidade escolar, criando experiências de contacto direto entre culturas e sedimentando, desde cedo, a convivência como aprendizagem e prática.

Num programa que atravessa memória, palavra e criação, a 10.a edição do FIFCA inscreve uma escala alargada de Abril — a de uma Liberdade que não se fecha sobre si mesma, mas que se expande no encontro, na diferença e na possibilidade de um mundo comum. Neste percurso de vozes, imagens e gestos, a Revolução dos Cravos torna-se tarefa incompleta, exigente, sempre por fazer, como horizonte que se disputa e se constrói, dia após dia, no modo como se vive, se escolhe e se resiste.

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