
Os vinhos produzidos em Cabeção, no concelho de Mora, podem a partir de agora, exibir a designação “Vinho de Talha” nos respetivos rótulos, uma conquista considerada histórica para os produtores locais e para a preservação de uma tradição secular profundamente enraizada na identidade da vila. O reconhecimento surge após um processo de cerca de três anos, liderado pela Confraria do Vinho de Talha de Cabeção, com o apoio da Câmara Municipal de Mora e da Junta de Freguesia.
Em declarações à Rádio Nova Antena, José Vieira, presidente da Confraria do Vinho de Talha de Cabeção, explicou que tudo começou quando os produtores iniciaram o processo de certificação dos seus vinhos. “Fomos confrontados com uma realidade em que não podíamos usar a designação ‘Vinho de Talha’ no rótulo, quando em Cabeção sempre se fez vinho de talha. Desencadeámos este processo com o apoio da autarquia e da Junta de Freguesia e, ao fim de cerca de três anos, conseguimos resolver esta situação”.
O responsável sublinha que, embora tenha sido Cabeção a impulsionar esta alteração, o reconhecimento beneficia todos os produtores alentejanos que cumpram o regulamento estabelecido. “Esta designação não é só para Cabeção. Foi Cabeção que impulsionou este processo e, já na próxima campanha, os produtores do Alentejo poderão utilizar a designação ‘Vinho de Talha’ nos seus rótulos”.
Mais do que uma valorização comercial, José Vieira considera que esta conquista representa um reconhecimento da identidade alentejana. “A maior mais-valia é o orgulho como alentejanos, porque não podíamos utilizar um termo tão nosso e tão característico do Alentejo como ‘Vinho de Talha’. É claro que poderá existir uma valorização económica, mas o mais importante é podermos afirmar a nossa identidade.”
O presidente da Confraria recorda que, até agora, muitos produtores eram obrigados a recorrer à designação “ânfora”, apesar de produzirem vinho em talhas, um método ancestral que remonta ao período romano.

Atualmente, Cabeção continua a manter viva esta tradição graças a cerca de meia centena de produtores. “Ainda existem cerca de cinquenta produtores. Muitos fazem vinho para consumo próprio, para a família e para os amigos. Depois temos cerca de meia dúzia de produtores que apostaram na rotulagem e na comercialização, tornando esta atividade sustentável e permitindo continuar a produzir este vinho tão próprio e tão nosso.”
Segundo José Vieira, é precisamente o método de produção que distingue o vinho de talha dos restantes vinhos. “Em Cabeção temos um verdadeiro museu vivo das talhas. Na minha adega, a talha mais recente tem perto de 200 anos e a mais antiga seguramente ultrapassa os 500 anos. Mesmo utilizando as mesmas uvas e o mesmo processo, nunca há dois vinhos iguais. A própria talha imprime características únicas ao vinho.”
O processo produtivo mantém-se praticamente inalterado ao longo dos séculos, começando nas vinhas tradicionais, onde a vindima é feita manualmente e as uvas são cuidadosamente selecionadas. “Estamos a falar de vinhas centenárias e de um trabalho praticamente todo manual. Não entra um cacho de uva que não tenha a qualidade que consideramos necessária. Depois inicia-se um processo que demora, no mínimo, seis meses, desde a fermentação alcoólica até à malolática”.
A tradição determina ainda um momento muito especial para os produtores. “A legislação obriga a que o vinho só possa ser retirado das talhas a partir do dia 11 de novembro, Dia de São Martinho. É nessa altura que começam as provas, os convívios e as festas entre amigos e convidados.”
Com este reconhecimento oficial, Cabeção reforça a sua posição como uma das principais referências nacionais na produção de vinho de talha. A vila, que reúne dezenas de produtores e adegas, vê agora reconhecido um património que alia história, tradição e autenticidade, garantindo melhores condições para preservar e promover uma prática transmitida de geração em geração.















