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Trimagisto transforma memórias dos lavadouros de Cabrela em criação artística contemporânea

A Trimagisto apresenta nos dias 4, 5 e 6 de junho, pelas 19h00, no Lavadouro Público de Cabrela, concelho de Montemor-o-Novo, o espetáculo “Lavadouros de Memória”, um projeto multidisciplinar que cruza investigação, participação comunitária e criação artística para recuperar e reinterpretar as histórias associadas aos antigos lavadouros públicos da freguesia.

A iniciativa reúne os artistas Nuno Coelho, Beatriz Filomeno e Maria Joana Figueiredo numa criação que combina performance ao vivo, música original e imagem documental, transformando a memória local em matéria artística contemporânea.

Segundo Nuno Coelho, o projeto dá continuidade a um trabalho iniciado em 2023 pela Trimagisto, centrado na recolha de memórias em freguesias rurais e na criação de objetos artísticos construídos em diálogo com as comunidades locais.

“Tem como objetivo nós irmos às freguesias rurais, descobrirmos um bocadinho da história dessas freguesias, trabalhar com a comunidade dessas freguesias e criarmos um objeto artístico que seja uma partilha com a comunidade”, explicou o criador. “Nos lavadouros de Cabrela foi essa a ideia: trabalhar com a comunidade, perceber que histórias existiam naquele espaço emblemático para podermos criar alguma coisa e apresentar ali no espaço.”

A performer Beatriz Filomeno destacou que “o processo começou com várias visitas à freguesia de Cabrela e conversas com habitantes locais, sobretudo mulheres que ainda guardam memórias ligadas aos lavadouros e às antigas zonas de lavagem comunitária utilizadas antes da construção do espaço atual”.

Nuno Coelho referiu a dimensão social e emocional descoberta ao longo da investigação. “Para mim, os lavadouros eram um lugar de encontro, quase como hoje são as redes sociais”, afirmou. “Ali havia troca de histórias de vida, confissões, partilha de angústias. Era um espaço onde as mulheres podiam conversar e apoiar-se umas às outras.”

A partir dessas memórias, a artista construiu uma performance inspirada nos gestos, ritmos e movimentos associados às rotinas femininas dos lavadouros, evocando os corpos, os silêncios e as relações que marcaram estes espaços ao longo de gerações.

A componente sonora do espetáculo é assinada por Nuno Coelho, que desenvolveu uma composição original baseada em sons recolhidos nos próprios lavadouros. “A música é baseada em sons da água, abrir a água, da água que passa nos canos”, explicou. “Vou fazer uma composição sonora a partir desses sons que vai percorrer todo o espetáculo.”

O criador adiantou ainda que o espetáculo terá uma forte componente imersiva, através da espacialização do som no próprio espaço do lavadouro. “O objetivo é criar diferentes ambientes sonoros ao longo do espaço”, referiu.

Já Maria Joana Figueiredo desenvolve o trabalho visual do projeto a partir das imagens recolhidas durante o processo de investigação e contacto com a comunidade.

“As narrativas são complementares, mas não lineares”, sublinhou Nuno Coelho. “São três linguagens diferentes que se cruzam e criam o espetáculo.”

“Lavadouros de Memória” procura não apenas preservar as histórias ligadas ao lavadouro de Cabrela, mas também reativar estes espaços enquanto lugares contemporâneos de encontro, reflexão e criação artística comunitária. Pela sua natureza multidisciplinar e pelo carácter universal das memórias que convoca, o projeto pretende também circular por outros territórios e dialogar com novas comunidades.

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