
Um estudo inédito da Universidade de Évora traça o novo retrato do visitante da região, o primeiro desde 2011. O perfil mudou: mais natureza, mais bem-estar, mais luxo.
O turista que visita o Alentejo é, na sua maioria, português, chega da Grande Lisboa, viaja em casal ou em família, fica em média duas noites e gasta cerca de 133 euros por dia e por pessoa. É este o retrato traçado por um novo estudo apresentado esta semana em Évora, que pela primeira vez em mais de uma década caracteriza de forma sistemática quem visita a região, o que nela procura e o quanto está disposto a gastar.
O trabalho foi encomendado pela Entidade Regional de Turismo (ERT) do Alentejo e Ribatejo à Universidade de Évora e coordenado pelos investigadores Joana Lima, Maria do Rosário Borges, Jaime Serra e Noémi Marujo. Envolveu 2.000 inquéritos — 800 em época baixa, entre novembro de 2024 e abril de 2025, e 1.200 em época alta, de agosto a outubro de 2025 — com uma repartição de 68% de residentes em Portugal e 32% de visitantes estrangeiros. A margem de erro é de 4% e o nível de confiança de 95%.
Quem é o visitante
O perfil que emerge do estudo é o de um visitante equilibrado em termos de género, casado ou em união de facto, com formação superior, trabalhador por conta de outrem e com rendimento mensal entre os 2.001 e os 4.000 euros. A maioria viaja em casal ou em família e está a visitar o destino pela primeira vez — dado que representa 60% dos inquiridos em época baixa e 63,4% em época alta. Ainda assim, esta maioria que visita pela primeira vez declara ter intenção de regressar.
No que diz respeito à origem, tanto na época alta como na baixa, a maioria dos visitantes chega da Europa, seguida da América. Entre os turistas portugueses — que constituem dois terços do total —, os provenientes da Área Metropolitana de Lisboa são os mais representativos, especialmente na época baixa. No verão, cresce o peso das regiões Centro e Norte do país.
O que mudou desde 2011
Uma das conclusões mais marcantes do estudo é a evolução do perfil do visitante face ao último levantamento equivalente, realizado em 2011. Segundo o presidente da ERT, José Manuel Santos, está em curso uma mudança estrutural: o visitante de hoje pertence a um segmento socioeconómico mais elevado, procura experiências mais diferenciadas e tem maior disponibilidade para gastar em animação turística e atividades complementares. “É cada vez mais um turista de segmento médio-alto e mesmo de luxo. É menos um turismo de família e mais um turismo de casal ou de amigos”, explicou.
Outro dado significativo é a alteração das motivações dominantes. Se em 2011 o turismo cultural e o património construído ocupavam o centro das preferências, em 2026 é o património natural e paisagístico que aparece como o atributo mais valorizado. O conceito de “experiência restauradora” — a procura de tranquilidade, descanso e fuga ao stress do quotidiano — emerge como um dos motores centrais da visita. “As motivações principais são a fuga ao stress, descansar e ter tranquilidade. Uma das palavras-chave mais referidas é precisamente a tranquilidade”, destacou Santos.
O presidente da ERT sublinhou que os visitantes revelam uma “superação de expectativas” relativamente à experiência que a região proporciona. “O património natural e paisagístico aparece como um elemento valorizador e central. No estudo de 2011 havia claramente um maior predomínio dos aspetos culturais e do património cultural”, afirmou.
Gastronomia, praias e monumentalidade

O estudo identifica os monumentos e a natureza como os atributos mais distintivos do destino. Em época baixa, a gastronomia destaca-se como elemento complementar de eleição; em época alta, são as praias que sobem nas preferências. A monumentalidade da região, com os seus castelos e fortalezas, é apontada como uma das marcas mais identitárias do território.
Contudo, o presidente da ERT admite que existe uma lacuna na animação cultural associada a esse património. “Temos uma grande monumentalidade, castelos e fortalezas, mas provavelmente não temos ainda eventos que consigam fazer viver esse território”, reconheceu, apontando o Programa de Dinamização das Fortalezas de Fronteira como possível resposta. A segurança surge como o segundo atributo mais valorizado, especialmente entre visitantes internacionais, nomeadamente norte-americanos e franceses, seguida do acolhimento e da hospitalidade da população. “Quando dizemos que o Alentejo recebe bem, isso não é um mero claim comunicacional. É verdade”, afirmou Santos.
A estadia, os gastos e o transporte
Em época baixa, 30,6% dos inquiridos planeava ficar duas noites no Alentejo. Já em época alta, 27,8% manifestou intenção de não pernoitar — uma visita de passagem que representa tanto uma oportunidade de atrair novos públicos como um desafio para a sustentabilidade económica dos agentes locais. O meio de transporte preferencial, tanto para chegar à região como para circular dentro dela, é o carro próprio.
O presidente da ERT destacou que a estadia média calculada pelo estudo coincide com os dados do INE de 2025, “em que o Alentejo finalmente conseguiu chegar às duas noites” — um marco relevante para a afirmação da região como destino de permanência e não apenas de passagem.
A aposta no mercado internacional
Apesar de os turistas portugueses dominarem o panorama, a diversificação para o mercado internacional surge como uma prioridade estratégica da ERT. “O crescimento do mercado internacional para aumentar a estadia média e reduzir a sazonalidade é muito importante”, afirmou Santos. A sazonalidade continua a ser um dos principais desafios da região, com pressão concentrada nos meses de verão e receitas mais limitadas fora dessa janela. O responsável considera que as tendências identificadas representam uma oportunidade para os agentes económicos da região ampliarem a oferta de experiências ligadas à animação e ao lazer.
A coordenadora do estudo, Joana Lima, explicou que o trabalho procurou “caracterizar o perfil do visitante do Alentejo em termos sociodemográficos, económicos e comportamentais”, analisando dimensões como as motivações da viagem, os meios de transporte utilizados, a experiência turística, os níveis de satisfação e a fidelização ao destino. Para a base de cálculo da amostra foi utilizado o número de hóspedes no Alentejo em 2023: 1.608.826, segundo o INE.














