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Mosteiro de Campo Maior recebeu a abertura do Ano Jubilar de Santa Beatriz da Silva

Ao longo do ano de 2026 está a ser celebrado o Ano Jubilar de Santa Beatriz da Silva (1424–1492), pois celebram-se o 100.º Aniversário da sua Beatificação e o 50.º Aniversário da sua Canonização. A religiosa portuguesa, natural de Campo Maior, fundou as Monjas Concepcionistas Franciscanas, ordem contemplativa.

Deste modo, neste dia 4 de janeiro foi o dia de abertura solene do Ano Jubilar de Santa Beatriz da Silva com a celebração da Eucaristia, às 18.00 horas, presidida pelo Arcebispo de Évora, na igreja do Mosteiro de Campo Maior.

À homilia, o Prelado eborense começou por saudar a Comunidade das Irmãs, os Sacerdotes e Diáconos presentes assim como a inúmera assembleia de fiéis que encheu a igreja do Mosteiro. “Cumprimentos de Ano Novo para todos e todas os amigos e as amigas deste Mosteiro que com a sua presença dizem tudo o que é mais importante, ou seja, que estão com esta comunidade. Muito obrigado a todos, pois encontro normalmente esta igreja sempre cheia com os amigos das nossas Irmãs Concepcionistas, com os familiares e benfeitores que acompanham sempre esta grande casa”, saudou.

Depois, refletindo sobre as leituras da Solenidade da Epifania que foram proclamadas, o Prelado eborense começou por sublinhar “a capacidade de sonho, a inquietação, a busca, o anelo, o desejo de mais que os magos assumiram na sua vida”.

“Os magos não foram uns existencialistas do presente, viver como se pode o dia a dia e ponto final.  Nada de horizontes, nada de ideais, nada de projetos de vida. Nada de conquistas, apenas como um vegetal, vivendo o dia-a-dia”, apontou, tendo refletido sobre o existencialismo e o materialismo que surgiram após a II Guerra Mundial.

“Esta atitude assim muito acomodada passou a ser a norma do materialismo consumista, que nos transforma em pessoas que produzimos para ganhar e comprarmos com o dinheiro que ganhamos aquilo que produzimos. Ou seja, é um círculo fechado, a sociedade do consumo”, explicou, apontando que “neste círculo fechado, nós vamos vivendo sem horizontes, sem ideais, sem perguntas. E isto, sobretudo, é muito doloroso quando cai como um raio de desinteresse pela vida nas novas gerações”.

“É impressionante perceber que os magos sonhavam, que os magos interrogavam, que os magos perguntavam, que os magos queriam mais e sempre mais. E esta é a história, meus irmãos, da nossa história. Portugal olhou para o mar e perguntou se não haveria nada além do mar. E fez-se ao mar…”, recordou.

“Nós temos que nos descobrir no mistério mais profundo da nossa vida”, apelou o Prelado eborense, dando o exemplo dos Magos que seguiram uma estrelam e fizeram o caminho.

“É impressionante nós sentirmos este desafio dos magos. E não aceitarmos a instalação comodista que o mundo de hoje nos propõe, acomodando-nos apenas ao metro quadrado de cada momento, mas indo além, cada vez mais além, tendo um sentido crítico profundo e uma capacidade de questionar a vida, de questionar e perceber o sentido da vida”, apelou.

“Santa Beatriz da Silva também peregrinou. A primeira peregrinação dela foi num sentido muito humano e social do seu tempo”, apontou, recordando a biografia da filha de Rui Gomes da Silva, alcaide Mor de Campo Maior e de Ouguela e de sua esposa, dona Isabel de Menezes.

“A sua família tinha, portanto, pergaminhos e ela seguiu esses pergaminhos naturais. Então, aí vai ela para Castela.  É a sua primeira peregrinação, com cerca de 11 anos de idade”, recordou, apontando “um projeto de vida, uma aventura,  um ideal muito baseado no seu tempo, na sua tradição, na sua cultura. E tal qual como os Magos, ela encontrou-se com uma dificuldade enorme”. “Reparei que há este ambiente em comum entre os Magos e Beatriz, o ambiente tantas vezes marcado pela intriga das cortes. E não é fácil desintrigar. A intriga é complexa, estruturada, maquiavélica, cínica”.

Recordando o tempo que Santa Beatriz passou fechada num cofre, o Prelado eborense sublinhou que “em três dias é muito curioso a repetição do Tríduo Pascal de Cristo, ela havia de morrer. E vai ser neste momento tão profundo e doloroso que ela se vê perante a morte, na escuridão do cofre, ela desce os degraus até à ribanceira mais profunda que se encontra com a beleza da vida”.

“Era lá no fundo que afinal escorria a água-viva. Afinal estava no fundo, mais fundo, a fonte que ela procurava, que era o sentido da vida não superficial, não fútil, não banal que ela seguia”, apontou.

“E aquela expressão quando deram por falta dela e obrigaram a procurá-la e lhe abriram o cofre, quando ela proclama que não quer servir mais nenhum rei, diz tudo. Nossa Senhora revelou-lhe a sua missão. Nossa Senhora da Conceição, provavelmente que ela alguma vez visitou e rezou em Vila Viçosa, fez-lhe a declaração que precisava dela e tinha uma missão para ela. Não fútil, não banal, mas uma missão de salvação”, afiançou.

“É muitas vezes no mais fundo da nossa peregrinação, quando nos encontramos face à falência total, à insolvência absoluta de nós próprios, ao falhanço, é aí que muitas vezes sentimos uma mão dada à nossa mão, a puxar-nos para fora da fossa, do dreno, do poço, da cisterna, digamos então do cofre. Também foi assim com os magos”, recordou.

“Eles saíram, voltou a estrela e em sonhos eles perceberam, que tinham que voltar por outro caminho. O outro caminho era o caminho de compromisso com aquele menino, o Rei da Paz, a Luz dos povos. Teriam de voltar por outro caminho e  converter as suas vidas. Quem chegou a Belém e se encontrou com a luz do mundo, saiu iluminado”, apontou.

“Muitas vezes é no fundo da nossa cisterna que nós nos encontramos com o Senhor. Porque as veias de água mais límpidas e puras andam profundas nos lençóis freáticos. E é preciso, às vezes, escavar minas para encontrar essa água. Essa água que mata à sede”, apelou, recordando que “foi essa água que preencheu a vida de Santa Beatriz e que fez de Santa Beatriz aquela que começou um caminho novo”.

“Santa Beatriz então começa o seu novo caminho. E o seu novo caminho é o quê? É fundar esta Ordem, na contemplação, que é o coração da Igreja”, afiançou o Prelado.

“O coração da Igreja é a espiritualidade. O coração da Igreja é o encontro com o rosto de Deus. O coração da Igreja que pode libertar o homem é saber mostrar o caminho para encontrar a beleza do amor que é Deus”, sublinhou, acrescentando que “a Igreja nunca evangelizará, a Igreja nunca será missionária se for vazia, se for apenas pragmática, se promover apenas eventos, se não for capaz de fazer o acompanhamento de cada pessoa e mostrar-lhe o segredo da vida em Jesus de Nazaré”.

“Por isso, a Igreja precisa profundamente de contemplação. Uma Igreja sem contemplação é oca, é como um sino que toca apenas para ser ouvido muito longe. É talvez um acontecimento mediático, mas sem consequência salvífica, sem dar a provar o sabor do amor, o cheiro do amor, a beleza do amor”, afiançou.

“É necessário ter saber para dar sabor à vida dos irmãos. E Santa Beatriz da Silva fez este itinerário, este caminho de oferecer à Igreja o que de mais belo pode haver, que é a dimensão espiritual da oração, a dimensão espiritual da profundidade, a dimensão espiritual da comunhão em comunidade, a dimensão espiritual da beleza de Francisco de Assis, que se encontra com o Senhor nas suas criaturas, no irmão lobo, na irmã morte, numa ecologia integral”, apontou.

“Temos de agradecer muito a Santa Beatriz da Silva. E a Igreja fê-lo, sem dúvida, quando o Papa Pio XI, em 1926, a proclamou bem-aventurada e o Papa Paulo VI, em 1976, a proclamou Santa”, recordou.

“A âncora está neste caminho profundo de sermos peregrinos de esperança. Peregrinos que caminham, que não se paralisam de um modo estático, numa indiferença, num desinteresse, numa omissão, mas que escutam o bater leve, levezinho à porta do Senhor. É este Senhor que encontrou o sim de Santa Beatriz da Silva”, referiu.

“Gostava de vos dizer que precisamos muito de vir pensar, meditar nesta profundidade da vida de Santa Beatriz. Precisamos muito, no tempo que vivemos, deste dom. Por isso, este Ano Jubilar concedido à família Concepcionista, é um dom para nós todos.  Saibamos aproveitá-lo. Vivemos também um tempo, como dizia o profeta Isaías, de muita escuridão. Não fiquemos instalados”, apelou.

“Ouçamos o bater de Deus ao nosso coração.  Enquanto estamos vivos, todos temos uma missão. Enquanto estamos vivos, o Senhor tem algo para nós. E perguntemos, com quem? Com quê? Para quem devo eu viver? Qual a minha missão, Senhor? Como Beatriz da Silva o fez, também nós ao perguntar, haveremos de encontrar uma resposta”, disse.

“O caminho de Deus, o caminho da profundidade, o caminho da verdade, o caminho do silêncio interior, o caminho de ser servo sem querer servir-se, foi o caminho dela. Voltar por outro caminho é o que nós queremos para nós também”, afiançou.

“Ao regressarmos desta celebração, voltemos por outro caminho. Deus queira que inquietos, Deus queira que não indiferentes, descomprometidos ou numa atitude de omissão. Mas cada um de nós saia daqui com esta pergunta. O que queres de mim, Senhor? Qual a minha peregrinação?  Santa Beatriz da Silva, ajuda-me a não viver uma vida fútil e banal, mas a ser alguém com o mastro alto na barca da minha vida, onde posso enfunar a vela da minha consciência e receber o sopro do espírito que me conduz e me faz fazer viagem. Que a minha barca tenha mastro alto e vela, que a minha barca não seja uma barca perdida nas ondas do mar, mas que tenha rumo, que tenha âncora e bússola”, referiu.

“Que tenhamos um ano muito fértil, muito fecundo, a partir da vida de Santa Beatriz da Silva. Que nos venha visitar ao nosso coração e que ela nos diga, baixinho, a nossa missão”, concluiu a homilia o Arcebispo de Évora.

Após a bênção final, a Abadessa do Mosteiro de Campo Maior, Sor Maria Inês da Cruz, agradeceu a presença de todos.

“Como a nossa mãe fundadora não nos deixou palavras, queremos apenas citar uma palavra das irmãs que nos precederam, que hoje estão no céu, que deram a vida também por esta casa, por aquilo que somos hoje, por aquilo que estamos aqui a viver hoje.  É só um breve parágrafo de uma carta da primeira irmã que veio para esta casa: “Os santos reis, assim que viram a estrela milagrosa, puseram-se a caminho, abandonando a sua pátria, para encontrar e adorar o Filho de Deus, o próprio Deus, Filho de Maria, no presépio de Belém. Nós, desde o momento em que os superiores legítimos nos manifestaram a Divina Vontade, Guiados pela Estrela da Fé, abandonámos a nossa pátria muito amada, Vilha Franca del Berço, e dirigimo-nos para esta vila de Campo Maior, seguindo a Estrela de Santa Beatriz.”

“Beatriz foi a estrela que fez sair estas nossas irmãs para levantar mais um sacrário em Portugal”, sublinhou a Abadessa.

“Ao venerar a relíquia, somos hoje convidados a pedir uma graça, a sair desta casa com uma esperança, com uma nova luz, sabendo que Deus caminha connosco. Deus continua ao nosso lado nesta peregrinação da vida a caminho do céu. É com esta alegria que somos convidados a fazer algum gesto de veneração à Relíquia de Santa Beatriz”, convidou Sor Maria Inês da Cruz.

“Com muita alegria, somos todos convidados hoje a começar este ano. Já no próximo dia 6 temos aqui um concerto no convento com os nossos amigos Matias e Cristel para continuar este ano cheio de atividades para dar a conhecer Santa Beatriz e todas as graças que a Igreja nos quer conceder através dela”, informou ainda a Abadessa.

Por fim, D. Francisco Senra Coelho, em nome da Arquidiocese, agradeceu também ao Presidente da Câmara de Campo Maior “a sua amável presença, bem como a toda a vereação e à presidência da Assembleia Municipal e da Junta de Freguesia. “É um conforto estarmos todos. E também me dizem que a Junta de Freguesia. Às autoridades que aqui estão que vêm manifestar o seu apoio às Irmãs, em nome da Igreja, muito obrigado!”.

Noticia da Diocese de Évora

Pedro Miguel Conceição/Jornal “a defesa”

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