Lenda: As Arcas de Montemor

27972241_1547450228707786_5536133591432221564_nConta a lenda que no Castelo de Montemor-o-Novo estão enterradas duas arcas: uma cheia de ouro, a outra de peste. É a história do aparecimento destas arcas que vamos contar.

Há muito, muito tempo atrás, no tempo dos Mouros, era alcaide de Montemor um viúvo austero, habituado à dura vida fronteiriça, onde eram mais frequentes os tempos de luta do que os momentos de repouso e prazer. Este homem tinha uma única filha que estranhamente amava, pois preferia mantê-la oculta de toda a gente, a ponto de nem aias nem amigas ter consigo.

A menina foi crescendo e o pai não se dava conta – ou talvez, quem sabe, preferisse não o saber. Certo dia, um dos mais leais cavaleiros olhou-a tão moça e tão linda que se apaixonou. Mas como visse que o alcaide continuava a guardá-la menina, o jovem foi e disse-lhe:

– Senhor, vossa filha é já mulher! Breve virá alguém a levá-la!

– O quê?! Estás louco? Como podes dizer tal coisa de uma criança?

– Olhai bem, senhor, olhai e vede onde esteve a criança…

– Cala-te! Ninguém a levará daqui, jamais! Não tornes a dizer-me tais coisas, a menos que queiras ver a tua cabeça rolar das muralhas do castelo!

– Mas, senhor… – insistiu o cavaleiro com mil argumentos vivos.

Insistiu tanto, tanto, que o alcaide se enfureceu e o trancou nas masmorras: no dia seguinte, veria a sua própria cabeça rolar muralhas abaixo.

Foi privada, esta conversa, mas, como por vezes as paredes dos castelos têm ouvidos, toda a gente veio a saber o que se passara. Também a filha do alcaide teve conhecimento da brava discussão, que, sem querer nem saber, motivara e, condoída, decidiu interceder junto do pai. Este, porém, não se dignou a ouvi-la, nem resposta lhe deu, deixando-a especada e espantada porque nunca assim o vira.

Foi só então que se decidiu a descer às masmorras. Falaria com o condenado sem que ninguém o soubesse, nem mesmo o pai.

Lá onde o sol nunca fazia visitas, o cavaleiro esperava condenado e sem medo o dia seguinte, passando a sua última noite que era a véspera da grande noite sem retorno.

Pensava nas sem-razões daquela conversa com o alcaide. Afinal, a moça nunca olhara para si, nem mesmo adivinhara o grande amor que há tanto o abrasava. E contudo sorria, sorria sem pena e sem medo, dentro da noite.

Tão longe de tudo estava que quando ouviu rodar a chave na fechadura da cela se levantou para acompanhar sem receio o algoz que esperava. Atónito, porém, vislumbrara no contraluz um vulto inesperado de mulher: era ela, aquela filha do alcaide, a dos olhos abrasados de mulher.

Por segundos nem um nem outro souberam o que dizer-se. Ela acabou por dizer-lhe coitado! Ele acabou por responder-lhe desta grã coita de amor! Porque naquela hora tudo lhes era permitido e inconsequente, por ser a noite da véspera da grande noite silenciosa.

Ouviram-se ambos e descobriram-se silenciados há muito. Ganhou o cavaleiro aquela batalha que já desistira de lutar, e a moça, essa, leu no seu livro próprio o que nunca soubera encontrar.

E fugiram. Fugiram com tantos cuidados que só na hora dos algozes o vieram a saber. E então foi o pânico geral: como dizer-lhe a ele, a esse alcaide irredutível, as ousadias dos amantes?! Só mesmo o carrasco que sabia cortar cabeças teve a coragem de ir-se a ele e contar-lhe.

Empalideceu o alcaide e esvaziaram-se-lhe os olhos de espanto. Pouco a pouco a fúria começou a subir-lhe o rosto, apoderou-se primeiro dos lábios, que tremeram, incharam depois as narinas, nublaram-se os olhos de ódio, chorou silencioso e agora eternamente só o seu cérebro enlouquecido. Por fim, quando tudo aquilo lhe chegou à voz, bradou:

– Vivos, quero-os vivos! Vou divertir-me finalmente! Ah, ah, ah! Vamos todos aprender a brincar! Ah, ah! Vai depressa, carrasco, vai depressa e traz-me vivos esses meninos que querem brincar comigo!

Partiu o carrasco levando consigo gargalhadas insanas rodopiando-lhe aos ouvidos. Ia com medo e com pena, e com inveja também: era bom fugir como aqueles dois que haviam fugido das suas masmorras e algemas pesadas. Mas ele, ele, como poderia fugir à sua masmorra de adaga, às suas algemas construídas de mil cabeças pelo seu senhor?! Ah, que inveja lhes tinha, a eles que se queriam inocentes até acharem culpas só de si mesmos!

Achou-os porque era fácil achá-los. Trouxe-os pela mão à presença do senhor de Montemor, que entretanto gastara todo o ódio, todo o medo amealhara no convencimento da solidão irremissível. Por isso, talvez, o terem-lhe encontrado uns olhos vazios e mortos.

– Aqui estão eles, senhor.

– Não vejo! Onde?! Sombras, sombras horríveis…Não os vejo…Só estas sombras, e tenho medo!

– Pai, pai… perdoa-me! Perdoa-me pelo que eu nunca diria! Perdoa-lhe pelo que ele sabia e te disse!

– Senhor, aqui estamos…Casámos… Dá-nos a tua bênção, que queremos viver na paz e contigo!

De repente o velho começou baixo a falar, sozinho:

– Casados?! Nunca! Pensam que eu conheço o perdão, que estou um pouco velho, um pouco louco!

– E acrescentou, num tom em crescendo: – Casados? E querem-se felizes? Ah, ah, ah, amaldiçoados, isso sim! Vós e todos os vossos até ao fim dos tempos! Mas…aqui tendes a minha prenda, gozai-vos dela. Olhai bem, e escolhei porque uma destas arcas está cheia de ouro e a outra…de peste! Escolhei, escolhei…ah,ah ,ah!

Assustados, fugiram ambos quando o velho louco se chegou bem perto deles com o seu hálito de insânia. Nunca mais ninguém os viu, mas é provável que tenham sido os pais de todo o Montemor inteiro, porque até hoje ainda ninguém ousou abrir as duas arcas nupciais enterradas no recinto do velho castelo, uma cheia de ouro, e outra cheia de peste.

Muitos anos se passaram e, até este ano de 2018, ninguém ousou tocar nestas arcas, nem mesmo em época de crise. Por isso, as arcas continuam bem escondidas. Quem terá ousadia de as procurar e a imprudência de as abrir?…